Roquette que entrou no futebol a pedir um 25 de Abril contra os "poderes
instalados" aliou-se logo de seguida a Pinto da Costa contra Vale e Azevedo e a
"concorrência desleal". Quando viu que Vale já não tinha hipóteses descobriu que
PC afinal até mandava na arbitragem. Pelo meio episódios como o do jogo nas
Antas em que o Sporting é roubado à grande e Roquette sai abraçado a PC
elogiando a arbitragem e a equipa do FCP (Dias da Cunha fez o mesmo anos
depois)... aliança anti-Benfica de JVA e pró-Olivedesportos-PT-bancos oblige.
A cantilena da "gestão rigorosa e profissional", as SAD's, a Bolsa, bla
bla... cada vez têm maiores passivos.
- O Sporting anunciou um acordo com o Banco
Comercial Português (BCP) e assinou-o, há poucos dias, no local onde comemorou a
passagem do 93º aniversário. Ao que julgo saber, esse acordo tem duas vertentes.
Uma é a conglomeração do passivo nessa entidade; a outra terá a ver com um
acordo para dez anos que ainda aparece aos sportinguistas como algo difuso.
Gostaria de começar esta entrevista com o esclarecimento dessa operação.
- A
primeira parte é realmente como refere. Há, por parte do BCP, um acordo no
sentido de que funcione como banco do Sporting. Trata-se da concentração de um
passivo que está em diluição muito rápida. Em relativamente pouco tempo o
Sporting deixará de ter passivo.
- Neste momento o passivo ascende a quanto?
-
Está mais ou menos à volta do que sempre esteve: na zona dos seis milhões de
contos.
- Quanto à segunda parte do acordo...?
- Tem a ver com um protocolo.
Conhecendo o BCP - que passa a ser o nosso principal interlocutor nesse sector -
o planeamento financeiro e de tesouraria do Sporting a um prazo largo, o
protocolo garante o apoio do Banco; cumprido que seja esse planeamento, claro.
É, no fundo, uma planificação transformada em protocolo. Amarra o Sporting ao
cumprimento escrupuloso de um plano e garante ao clube o apoio financeiro de uma
instituição importante da vida portuguesa. Fará, por exemplo, com que dentro de
três anos o Sporting - o Sporting-instituição; não estou a falar da SAD - não
tenha défice; que haja uma conta de exploração equilibrada.
- Esse cumprimento
rigoroso de uma política financeira supervisionada por um protocolo com um banco
não poderá vir a influir na política de investimento desportivo?
- Não! Porque
nesse planeamento está previsto, inclusive, o apoio do Sporting à Sporting SAD
em termos de eventuais aumentos de capital. Aliás, está previsto que esse
aumento de capital possa ocorrer algures ainda este ano.
- Esteve previsto para
Fevereiro, não esteve?
- Poderia ter acontecido. Nesta altura está previsto que
possa acontecer no último trimestre do ano. Mas poderá também não acontecer.
Depende das necessidades da SAD e de como as coisas forem evoluindo. Nesse
aspecto, está tomada a decisão de que quem constrói o centro de estágio e o novo
estádio é o Sporting Clube de Portugal. E essa equação financeira já tem a
respectiva solução.
- Essa solução passa de alguma maneira por esse acordo com o BCP?
- Não exactamente. Esse é um quadro de tesouraria corrente.
- Já agora:
qual a prioridade entre centro de estágio e novo estádio?
- O centro de estágio.
Por uma razão simples: sem o centro de estágio estar pronto não podemos começar
a construir o novo estádio, que será implantado na zona onde actualmente se
encontram os campos de treino.
- Ainda no que respeita ao acordo com o BCP: é a
primeira vez que uma instituição bancária dessa grandeza, em Portugal, está
junta a uma SAD, ainda que por via indirecta do protocolo com o clube
maioritário. O que significa, em termos gerais, para o Sporting, este protocolo?
Trata-se de um investidor institucional que traz confiança ao mercado, não é
verdade?
- Bem, neste caso, o BCP não funciona na qualidade de investidor e está
junto ao Sporting-instituição.
- Que...
- Que, é evidente, directamente e
através da Sporting SGPS, se assume como accionista controlador da Sporting SAD.
Mas o BCP, em relação à SAD, não tem um envolvimento especial que outros bancos
não tenham.
- De qualquer forma, a Sporting SAD tirou dividendos desta
associação do clube ao banco. Ou não?
- Tira, mas pela via do Sporting-instituição. Isto é mais importante do que se o protocolo dissesse
respeito à Sporting SAD. - Porquê? - Porque representa que o Sporting Clube de
Portugal tem realmente a credibilidade, e a estabilidade económica e financeira,
necessária ao estabelecimento de um protocolo deste tipo. Isto decorre de um
processo que teve prioridade absoluta: a recuperação do clube em termos
patrimoniais, económicos e financeiros. Objectivo esse que está atingido. - ...
- Não só em termos do presente, como numa projecção a dez anos, período que cai
no âmbito do protocolo. É bom que se diga, de resto, que o Sporting não
contactou apenas o BCP. Auscultámos, também, outros grupos financeiros.
TROCAR
PATRIMÓNIO
- Porquê, no final, o BCP?
- Foi o banco que nos apresentou as
soluções concretas para concretizarmos as nossas necessidades. E o Sporting sabe
agora, depois de fazer uma projecção de tesouraria a dez anos - num estudo que
tem a ver com o clube e com as sociedades participadas -, que pode contar com o
apoio do BCP no sentido de as tornar sucessivas realidades até 2009. Esses
compromissos, para além dos eventuais aumentos de capital previstos na SAD, são
balizas que o Sporting pode e vai respeitar. Isto não se trata de meter números
num papel; trata-se de uma coisa seriamente pensada e articulada do ponto de
vista profissional e que tem obviamente como base aquilo que no Sporting é hoje
muito importante: o património imobiliário. É este que permite as opções
estratégicas importantíssimas que o Sporting está a tomar, entre elas a
construção do novo estádio. O Sporting vai trocar algum património imobiliário
pela construção do estádio.
- Já está definida qual a área de terreno que será
trocada?
- Não. Mas terá a ver com a área total de que o Sporting disporá na
altura em que o estádio actual for demolido. Nós vamos continuar a utilizar o
estádio actual até ao fim da época de 2002. Nessa altura o estádio novo estará
construído, o outro será demolido, e ficaremos com uma autorização de mais cerca
de 120/130 mil metros quadrados, para além do restante património imobiliário. O
Sporting não é, à partida, uma instituição vocacionada para gerir ou promover o
património imobiliário - que, ainda por cima, não é estratégico, é tradicional,
sejam metros quadrados de habitação, de escritório ou de espaços comerciais. Por
isso o trocaremos. O Sporting pretende um património imobiliário que esteja ao
serviço daquilo que no clube é nuclear, ou seja, o futebol profissional.
- A
expectativa é construir o novo estádio em três anos?
- Exactamente.
- A
engenharia financeira para viabilizar esse projecto passa, então, pela troca de
património. E passa por que outros apoios? Do Governo, já se sabe, com 4,3
milhões de contos. E também da Câmara Municipal de Lisboa (CML)?
- Da Câmara
não. A CML o que deu, e muito importante, foi a aprovação por unanimidade na
assembleia municipal, o que é notável, do projecto imobiliário do Sporting para
aquela zona. Isso também diz da credibilidade e profissionalismo com que o
Sporting tratou da questão.
- E o que significa essa aprovação?
- Olhe, que por
exemplo a qualidade de vida na zona vai melhorar muito. Essa foi a ideia-base da
nossa apresentação. E, obviamente, a decisão da CML criou as condições para que
o Sporting pudesse, por si próprio, avançar com a construção do novo estádio.
O
CUSTO DO ESTÁDIO
- Qual é o custo global estimado do novo estádio?
- Cerca de 15
milhões de contos.
- Do Governo virão 4,3 milhões. E o restante só da troca de
património?
- Não. Teremos os chamados accionistas fundadores. Serão doze.
- Já
estão definidos alguns?
- Há contactos, alguns bastante adiantados. É
relativamente simples: trata-se da mesma estrutura aplicada no ArenA de
Amesterdão e noutros estádios. Os doze serão encontrados entre uma Pepsi Cola e
uma Coca Cola, entre uma TMN e uma Telecel, entre a Unicer e a Centralcer e por
aí fora. Obviamente um desses accionistas fundadores poderá vir a ser o BCP, que
passaria a ter instalações dentro do estádio do Sporting.
- E daí virão...?
-
Três milhões de contos. O resto sairá do património imobiliário do Sporting.
- E
a quem competirá a gestão futura desse espaço?
- Ao Sporting-instituição como
proprietário. E a exploração ficará a cargo da Estádio de Alvalade, SA, empresa
que hoje em dia já faz a exploração do estádio actual.
CENTRO DE ESTÁGIO
- Vamos
ao centro de estágio. Porquê Alcochete?
- Estudámos alguns locais e chegámos à
conclusão que, por razões de acesso e transporte, e também ambientais e de
proximidade, Alcochete era a zona adequada. Além do mais, temos a expansão
assegurada se, no futuro, viermos a precisar de ocupar mais área. E é, claro,
uma zona de forte implantação sportinguista.
- Quanto vai custar esta obra?
-
Aproximadamente um milhão de contos.
- ...
- Este centro de estágio, além de
permitir a construção do novo estádio, representa uma alteração estrutural
importantíssima na gestão do futebol profissional do Sporting. Hoje o trabalho
que é feito em Alvalade implica, na maior parte dos casos, meio dia de trabalho.
Os jogadores chegam, fazem o treino e regressam a casa. Ora o tipo de trabalho
que é necessário fazer implica um espaço muito mais largo. Um espaço não apenas
dedicado ao treino físico, mas de 6/7 horas dedicado a muitas mais coisas. Já é
assim em muitos outros grandes clubes europeus. O centro de estágio não é,
apenas, a construção de meia dúzia de campos relvados. É um projecto muito mais
abrangente.
BOLSA E DIVIDENDOS
- Regressemos à SAD: alguma vez irão ser
distribuídos lucros?
- Não tenho qualquer dúvida. Existem, aliás, disposições
regulamentares que obrigam a que essa questão seja, pelo menos, colocada aos
accionistas. A SAD do Sporting poderá apresentar resultados positivos neste
exercício e, nesse caso, uma determinada percentagem deles tem de ser proposta
como dividendos, embora não seja forçoso que essa distribuição se faça. Os
accionistas podem aprovar um destino diferente. Acontece muitas vezes que esses
dividendos são reinvestidos.
- As grandes empresas cotadas em bolsa distribuem
anualmente dividendos...
- Acredito que dentro de alguns anos essa prática possa
ser uma rotina na Sporting SAD. Poderá fazer parte, também, de um enquadramento
mais normal das Sociedades Anónimas Desportivas no mercado de capitais. Serão os
accionistas quem terá de o determinar. E o Sporting, como accionista maioritário
por via directa ou indirecta, deverá ter alguma preocupação de colher da parte
dos accionistas exteriores ao Sporting - a maioria dos quais, acredito, são
sportinguistas - a sua opinião e o seu desejo.
- Não lhe pergunto se acredita
que uma SAD pode algum dia aspirar a ser admitida ao primeiro mercado da Bolsa
de Valores de Lisboa - obviamente que me responderia “sim”. Pergunto apenas:
qual o prazo, realista, para que isso possa acontecer?
- Não considero isso uma
coisa fundamental.
- Numa primeira fase já o considerou importante.
- Já, porque
na altura o arranque por essa via nos daria eventualmente um maior impacto.
Contudo, a partir do momento em que foi possível assegurar o funcionamento em
contínuo, mesmo no segundo mercado, para todos os efeitos deixou de haver
diferenças. Mas também lhe digo: no primeiro mercado, se calhar, há empresas com
menos padrão do que eventualmente podem ter as duas SAD’s que estão cotadas no
segundo mercado. Volto, no entanto, a repetir: esta questão não é estratégica
nem deve ter qualquer tipo de prioridade. Inclusive devemos aceitar que o número
de acções transaccionadas nas duas SAD’s cotadas é relativamente baixo.
- Esse é
um problema inultrapassável?
- Não, não é. Neste momento já se fala, e eu acho
isso inevitável, numa bolsa pan-europeia. E numa bolsa a funcionar a nível
europeu as coisas mudarão muito para as SAD’s. E porquê? Porque se iriam
encontrar com outras instituições do mesmo tipo, e do mesmo sector, com mais
experiência. Isso seria positivo para nós.
- Está a falar de um cenário a não
menos de dez anos...
- Acho que não. Vão acontecer coisas muito depressa nessa
zona.
- Quando as SAD’s apareceram na Bolsa pensou-se que as oscilações de
cotação se fariam muito mais em função dos resultados desportivos. Ora,
curiosamente, a SAD do Sporting recuperou nas últimas semanas em função do
negócio, fosse ele a venda de Simão Sabrosa (que permitiu um encaixe de 2,8
milhões de contos), as renovações de Delfim e Duscher ou o protocolo com o BCP.
Que significado retira desta realidade?
- Devo dizer-lhe que nunca achei que os
resultados desportivos imediatos pudessem vir a ser a origem de grandes
flutuações. A tendência dos resultados desportivos, essa, sim. Uma trajectória
claramente ascendente ou descendente nunca deixaria de provocar alterações. Por
isso mesmo, é natural que numa altura em que o Sporting prepara um plantel
altamente competitivo isso tenha reflexos na cotação em Bolsa. Assim como, de
resto, todos os acordos que promovam uma boa gestão, a começar pela gestão do
plantel, como esses dois que referiu; e houve outros.
GENTE DE QUALIDADE
- O
grande público conhece os rostos do futebol do Sporting, em especial Paulo
Abreu. Eu pergunto-lhe: quem são as pessoas que estão consigo por detrás da
concepção e realização do projecto empresarial do Sporting?
- O Sporting é hoje
nessa vertente uma instituição diferente; até diferente dos concorrentes mais
directos, o que por sua vez determina um presidente diferente.
- Embora no caso
do presidente talvez já tivesse sido mais diferente do que é hoje...
- Talvez...
Mas noutra perspectiva que não nesta que estava a referir. O Sporting tem hoje
no Conselho Directivo e nos Conselhos de Administração das várias empresas do
grupo gente de enorme qualidade, tanto em termos nacionais como internacionais.
- Em “full time”?
- Também em “full time”, mas isso é consequência. Estava a
falar do António Dias da Cunha, do João Ribeiro da Fonseca, do Paulo Abreu, do
Nuno Caldeira da Silva, do dr. Oliveira Martins, do eng. Correia Sampaio, entre
outros, não esquecendo as pessoas que estão no Conselho Directivo, como Nuno
Galvão Telles, Isabel Trigo Mira, Mário Moniz Pereira, Reis Pinto, etc. É tudo
gente de grande qualidade e grande padrão. E gente que não é remunerada. Não há
remunerações ao nível do Conselho Directivo ou dos CA da Sporting SAD ou da
Sporting SGPS. E ter essa gente neste projecto é fundamental, até porque comanda
automaticamente o nível dos Quadros. Aí há, também, gente de grande valor, como
é o caso do dr. Diogo Gaspar Ferreira, director-geral do Sporting. Depois
repare: quando esta gente se senta à volta de uma mesa para tomar decisões,
sejam de tipo estratégico, de planeamento, ou de gestão diária, as coisas têm de
funcionar por consenso. Neste contexto não há espaço para um presidente-ditador,
ou inevitavelmente as pessoas sairiam porque estão habituadas a relações de
qualidade. Ora bem, penso que isso é uma grande mais-valia do Sporting - e
também só por isso conseguimos atingir a grande velocidade a que as coisas hoje
se estão a passar no Sporting-instituição. Caso contrário, como acontece noutras
sedes, tudo estaria limitado ao tempo do presidente. Isso, repito, é uma grande
força deste Sporting e ficou demonstrado na rapidez com que conseguimos promover
e gerar as soluções que estão a começar a ficar à vista e permitirão um futuro
risonho ao clube. Neste contexto não há lugar a ditadores, a mecenas ou a outros
desvios.
CUMPRIR MANDATO
- O seu mandato é de mais quanto tempo?
- Mais dois
anos e qualquer coisa.
- Espera levar o mandato até ao fim?
- Tenciono, claro.
Foi um compromisso assumido com os sócios e hoje acho que o posso cumprir numa
perspectiva mais tranquila.
- Faço-lhe esta pergunta porque, há uns meses,
apareceram rumores de que o senhor poderia estar a organizar a vida do Sporting,
desportiva, financeira e empresarial, para depois passar o testemunho...
- Isso
nunca foi posto nessa perspectiva de eu poder afastar-me do Sporting. Aliás, eu
estarei no clube só enquanto os sócios o quiserem, independentemente do
compromisso que haja. Se em função de alguma assembleia geral (AG), ou de algum
sentimento generalizado, se chegar à conclusão que não devo ser presidente do
Sporting, eu não fico nem mais um dia.
- Não é esse o caso. Estava a falar de
uma saída em função da sua própria vontade.
- Eu sei. Mas é importante que diga
isto. Sabe porquê? Porque realmente é outra vantagem competitiva do Sporting:
são os sócios, reunidos em AG, que são a sede do Poder no clube. Quando não é
assim há sempre manipulações de Poder. Se fizer a história das decisões que
foram tomadas nos últimos anos, verá que, repetidas vezes, e muitas delas sem
necessidade, nós pusemos à apreciação dos sócios as decisões fundamentais a
serem tomadas. Isso aconteceu com o património imobiliário, até mais que uma vez
- de maneira que os sócios poderiam até dizer “nós já decidimos isto, já foi
aprovado”. Mas nós entendíamos, e entendemos, dever marcar muito bem este
caminho. A sede do Poder, por cultura interna, tem de ser a AG. Assim se evitam
muitas tentações e, até, manifestações desadequadas fora da AG do clube.
-
Concluindo e resumindo: garante que vai cumprir o mandato até ao fim...?
- E com
muito mais tranquilidade hoje. Aqueles rumores que há pouco referiu têm a ver
com a tremenda pressão resultante da vida de todos os dias.
- Neste caso a
oriunda dos resultados da equipa de futebol...
- Não é só isso. É mais o tentar
conciliar em 24 horas a vida profissional, familiar e o Sporting Clube de
Portugal. Isso é difícil. E gera, inevitavelmente, problemas.
- O Sporting,
estou a ver, foi um grande choque na rotina, chamemos-lhe assim, da sua vida,
principalmente a familiar?
- Indiscutivelmente. Foi e continua a ser. É qualquer
coisa que tenho de gerir e provoca tensões. Na minha actividade de empresário
felizmente tenho uma equipa organizada e posso contar com a excelente
colaboração do dr. Dias Loureiro, se não teria problemas muito complicados para
gerir um grupo de indiscutível dimensão. Estrategicamente a Plêiade participa
sempre de forma activa em empresas-líder dos respectivos sectores e, portanto,
essa liderança implica um conjunto de obrigações que não existiriam no caso de
sermos investidores passivos. E como até aqui a minha vida se distribuía, em
termos de carga de trabalho diária, a 80% para o Sporting, as tensões
criaram-se.
- E o que mudou?
- Hoje, pela organização e pela qualidade das
pessoas que servem o Sporting, pela forma como o projecto do clube foi tratado,
sinto-me muito mais tranquilo em relação ao futuro e em relação aos anos que
faltam para o final do mandato. Esse tempo já está muito bem planificado. Vou
ter uma carga de trabalho muito menor do que aquela que tive até agora.
-
Estando o futuro estratégico e empresarial do clube a seguir o caminho
estabelecido, pode dizer-se que já só lhe falta agora o essencial: o êxito no
futebol. E faço a ponte para o futebol começando pela época passada...
-
[Interrompendo decidido] Vamos lá a isso.
O LUTO COMO LIÇÃO
- Não considera que
o luto foi uma luta falhada?
- Não! Não considero. Assim como não considero que
as razões que levaram o Sporting a enveredar por esse tipo de manifestação, e
que tiveram a ver com a defesa da verdade desportiva, tivessem sido as únicas
que determinaram a classificação final da equipa em quarto lugar no Campeonato.
Houve outras razões, próprias, que, com a maior objectividade, não podemos
deixar de considerar. Voltando ao luto digo-lhe: foi uma lição, de alguma forma
até para o País. Foi a transmissão clara e objectiva de que há uma grande
instituição nacional que se envolve na luta pela verdade desportiva, e de uma
forma civilizada. Não se subestime a enorme dificuldade de organizar qualquer
coisa de semelhante de forma civilizada e não turbulenta.
- Ainda houve duas ou
três pequenas manifestações de intolerância, uma no Estádio de Alvalade, aquando
da visita de inspectores da UEFA, e outra junto à CML...
- Tenha paciência,
foram dois ou três casos isolados que não retiram o brilho à forma cívica e
ordeira como os sócios e simpatizantes do Sporting exprimiram o seu
descontentamento e revolta.
- ... Lembro-me que o senhor teve, até, de fazer um
ou dois avisos em público para segurar os ímpetos dos adeptos mais exaltados...
- Isso não foi no quadro do luto.
- Foi, pelo menos, na sequência dele.
- Não.
Isso foi aquando da visita dos fiscais da UEFA, na minha opinião não teve a ver
com o luto. De qualquer forma, se quiser, foram acções isoladas que não
retiraram brilho à forma cívica e ordeira como o Sporting se manifestou.
- E
quanto ao futuro...?
- Não se faz o mesmo tipo de movimentação duas vezes. E,
também não estando resolvido o problema da verdade desportiva, o Sporting tem de
ter outras opções estratégicas. Em relação à época de 1999/2000, essas opções
estratégicas têm de ser de outro tipo e encaixarem-se, igualmente, na
personalidade histórica do Sporting.
- Pode dar um exemplo?
- Movimentar e
mobilizar o clube, a começar por todos os núcleos espalhados pelo País, de forma
a fazer a pressão possível, se calhar em antecipação, no sentido de evitar o que
aconteceu na temporada passada.
- Está a dizer-me que o Sporting não está
descansado e teme a repetição daquela série de erros de arbitragem da época
passada?
- É evidente que não estamos descansados, até porque pomos a fasquia
mais alta. Na época anterior dissemos que o Campeonato Nacional não era uma
prioridade. Decorrido um ano, essas outras prioridades estão alcançadas. O
equilíbrio económico e financeiro do clube é uma realidade. Os resultados
desportivos passam a ser o alvo principal da nossa atenção e da nossa ambição,
como tem de ser. É para isso que o clube existe e não para ter resultados
financeiros. Nós sempre soubemos disso; como sabíamos que sem essa capacidade
económica e financeira o atacar a fundo na vertente desportiva seria uma
imprudência. Os resultados desportivos passam, portanto, agora, a ser uma
prioridade.
LUTAR PELO TÍTULO
- Essa fasquia mais alta é, claramente, assumir a
luta pelo título nacional. Ou não?
- É óbvio. A justíssima aspiração do Sporting
de ser campeão nacional é uma coisa que até ninguém nos tirava antes.
- Mas
houve uma certa abdicação...?
- Foi, como lhe expliquei, sem abdicar do que quer
que fosse, um apontar da prioridade noutro sentido. Isso tornou-se é mal
entendido. Houve uma lógica clara no caminho que o Sporting percorreu. Os
resultados desportivos passam agora a ser prioritários com muito mais
possibilidades de serem conseguidos e não, apenas, como manifestação de um
simples desejo. De resto, o Sporting, no futebol como nas outras manifestações
desportivas, tem o seu nome ligado aos êxitos.
- E é essa a linguagem que,
creio, os associados do clube aplaudem aos seus dirigentes. Não aquela que
ouviram na época passada...
- Foi uma questão de prioridade, que já expliquei.
Os sportinguistas compreenderam. E agora o clube tem outras condições para
tentar legitimar as suas ambições, mesmo num quadro competitivo no qual, apesar
das evoluções favoráveis, ainda não existe verdade desportiva.
O INEVITÁVEL
"SISTEMA"
- Quando fala da falta de verdade desportiva, está a referir-se
concretamente ao quê? À arbitragem?
- Não só à arbitragem. É um problema de
cultura. Agora fala-se muito no “sistema”...
- Já agora...
- ... E o “sistema”
para mim é, claramente, um conjunto de maus hábitos adquiridos! Que não se
querem mudar e têm, como é natural, influência nas arbitragens.
- Consegue
identificar, geograficamente, um local de onde esses maus hábitos sejam
estimulados ou que esses maus hábitos sistematicamente privilegiem?
- [Passando
por cima da pergunta] Esse maus hábitos são um problema cultural, têm a ver com
a forma como se estruturam as competições, como elas se articulam, a forma como
pensam as pessoas que lá estão. Mudar isto é uma tarefa árdua e de persistência.
- Vê sinais de melhoras?
- Vejo alguns. Por exemplo, a melhor definição de
responsabilidades a nível da arbitragem; uma articulação mais conseguida entre a
Liga e a FPF também nesse aspecto. A próxima AG da Liga, que terá lugar na
sexta-feira, produzirá algumas alterações estruturais em muitos aspectos,
disciplinares, profissionais, de competição, arbitrais...
- Por exemplo?
- A
divulgação ou, pelo menos, o acesso aos relatórios técnicos dos árbitros e
delegados ao jogo. É uma coisa pela qual sempre lutámos. Há, pois, aqui,
elementos positivos. Mas seria ingénuo pensar que a alteração deste caldo de
cultura se fizesse num ano, dois ou três. Vai demorar tempo. E sabe o que
implica tudo isto numa instituição como o Sporting, que tem a legítima aspiração
de ser campeão nacional? Temos de ser substancialmente melhores do que os
outros. Não chega ser 5% ou 10% melhores, temos de ser 30% ou 40% melhores.
- É
curioso: o presidente do Benfica, Vale e Azevedo, ainda recentemente me disse o
mesmo, numa entrevista. Só que ao Benfica parece que chegará ser 20% melhor...
-
Não sei se o presidente do Benfica diz isso. O Sporting di-lo há bastante tempo.
Externamente, vamos continuar a bater-nos contra os maus hábitos e a dar suporte
a todos aqueles que nos fizerem acreditar que podem ser agentes de
transformação; internamente, vamos acelerar a dinâmica e a competitividade da
nossa equipa de futebol no sentido de gerarmos a tal margem de tolerância para
aguentarmos aquilo que ainda vai acontecer durante alguns anos.
O BENEFÍCIO DO FC PORTO
- O famigerado “sistema” é, para si, um conjunto de maus hábitos.
Ponho, de outra forma, uma questão a que há pouco não me respondeu: esse
conjunto de maus hábitos tem beneficiado algum clube em especial?
- Acho que
sim.
- O FC Porto?
- Acho que sim. Objectivamente tem sido beneficiado,
independentemente de não se dever considerar que a hegemonia desportiva do FC
Porto é totalmente “fabricada”. Não estou de acordo com isso. Mas é evidente que
até essa própria supremacia gera, por si mesma, uma certa dinâmica e algumas
sinergias, fazendo com que essa cultura não se desinstale.
- Isso que me está a
dizer descobriu-o agora, ou já era uma realidade por si conhecida mesmo na
altura em que estava de boas relações pessoais com o presidente do FC Porto,
Pinto da Costa?
- Eu sabia que esta questão era posta, mas imaginava que
houvesse alguma postura de boa-fé por parte do presidente do FC Porto. O que se
passa é o seguinte: sou muito intolerante em relação à mentira! É uma coisa que
me choca muito profundamente. Sabe porquê? Não se pode construir nada em cima da
mentira. E há mentiras e mentiras. Obviamente, um ministro das Finanças nunca
confirmará uma desvalorização da moeda no dia anterior à decisão, e isso pode
até nem lhe pesar na consciência. Mas daqui parte-se para um outro equívoco que
vigora no futebol nacional: qualquer mentira é legitimada pelo pseudo-interesse
da instituição! É preciso acabar com isto. É um desprestígio.
- Não me diga que
nunca faria isso no Sporting?
- Nunca faria, nem fiz! Nem toleraria. A partir
desse momento estaria a trabalhar contra o prestígio do Sporting. E uma
instituição só é verdadeiramente grande quando se afirma pela credibilidade.
Confesso a minha intolerância para com a mentira, até porque ela gera memórias
curtas.
- Julgo que, entre algumas cautelas, já me disse que o Sporting iria
assumir-se este ano como candidato ao título...
- [Interrompendo] Não o disse
com cautelas. O Sporting é, como sempre foi, candidato ao título. O que se passa
é que este ano isso é uma prioridade. O ano passado, já lhe expliquei, a
prioridade foi para as finanças do clube.
- ... Mas também já disse, há pouco
tempo, algures, que este ainda não seria o ano em que ganharia a melhor equipa.
É capaz de me explicar esta aparente contradição entre querer ser a melhor
equipa e não acreditar na possibilidade de ela ganhar?
- Já falámos disso quando
abordámos a questão da verdade desportiva. Essa afirmação foi feita dentro de
determinado contexto. E qual foi ele? Que seria ingénuo imaginar que o problema
da verdade desportiva no futebol português está resolvido. Não está.
- Não teme
estar a abrir uma porta por onde pode surgir a desresponsabilização da equipa e,
em especial, dos jogadores?
- De todo em todo! Aos jogadores vai ser exigido
serem 30 a 40% melhores do que os outros. E têm de estar preparados para que
situações semelhantes à da época anterior, que espero nunca atinjam a mesma
dimensão, sejam melhor encaixadas.
NÚMEROS DO DEFESO
- Quanto apurou o Sporting
em vendas neste defeso e quanto investiu ou acabará por investir no reforço da
equipa?
- Fizemos cerca de 4.2 milhões de contos com o Simão, o Leandro e o Nené.
E até este momento gastámos 1.7 milhões com as aquisições de Ayew, Hanuch e
Schmeichel, faltando resolver o caso do Toñito. Em relação a isto ainda lhe
digo: dentro da lógica de gestão da Sporting SAD, não alterámos em nada a
estratégia que tínhamos definida em relação a dispensas e contratações pelo
facto de ter acontecido a saída do Simão. Já tínhamos programado o que iria
acontecer e devo dizer que considero altamente importante que o Sporting tenha
executado essa política como executou. Acabámos, apenas, por não conseguir o
concurso do Brian Laudrup, em circunstâncias que têm a ver, também, com a
mudança do treinador. Foi uma execução estratégica quase milimétrica. Vamos
entrar na nova época com quase todos os problemas resolvidos. Mais: com algum
jeito, vamos mesmo resolver todos os problemas relativos a situações pessoais
que pesavam sobre o futebol profissional, até em termos orçamentais. Havia
alguns ordenados altos que o Sporting estava a pagar sem necessidade. Veja a
transformação do passe do Bruno Giménez, um futebolista caro, numa parte
importante do passe do Quiroga - tratou-se de uma operação correctíssima e de
boa gestão; se vir caso a caso, este percurso foi percorrido com enorme rigor. O
Paulo Abreu está de parabéns, e aqueles que o acompanharam, porque conseguiu
executar em termos negociais aquilo que foi a definição estratégica da Sporting
SAD.
- Está a falar, entre outras coisas, da renovação dos contratos de Delfim e Duscher?
- Claro. E nesses processos entrou em linha de conta a experiência
adquirida no caso do Simão, inclusive na introdução de cláusulas rescisórias
mais elevadas.
- Nas contas que fez, sobraram cerca de 2.5 milhões de contos. E
esse dinheiro...
- [Interrompendo] Esse dinheiro resulta em suporte financeiro
da SAD, que ficou largamente reforçado e vai permitir, em termos de arranque da
época, alguma correcção que se julgue adequada.
ESTRUTURA FUNCIONA
- Os novos
jogadores foram contratados entre a saída de Mirko Jozic e a chegada de Giuseppe
Materazzi. Quem avalizou essas contratações?
- O Conselho de Administração da SAD.
- Não é perigoso que seja o CA da SAD a chegar à conclusão que falta um
guarda-redes ou sobra um extremo-esquerdo?
- Também não é assim. Há aqui uma
questão de grande importância. O Sporting não vai voltar a viver aquela situação
em que se compravam e vendiam equipas inteiras. E tem, por isso, uma estrutura
no futebol profissional, na qual se encaixa o treinador que é depois quem diz se
a equipa joga em 4x4x2 ou em 4x3x3. Essa estrutura funciona, pensa, observa,
durante uma época inteira. Obviamente, vinham do tempo do sr. Mirko Jozic
análises ao plantel, indicações sobre as quais reflectimos. Mas a
responsabilidade final pertence ao CA da SAD. Ponto final, parágrafo.
LAUDRUP E
O TREINADOR
- Brian Laudrup. Ele chegou a vir a Lisboa conhecer as pessoas do
Sporting. Porque não fez ele a mesma opção do compatriota Schmeichel?
- A opção
de Laudrup também se explica de forma clara e transparente. Ele fazia questão de
conhecer o treinador no período de tempo que estabeleceu para tomar a decisão. E
dentro desse calendário apertado o Sporting não definiu a questão do responsável
técnico. Por isso tivemos de abdicar da corrida. Poderíamos ter andado a encanar
a perna à rã mas fomos sérios e dissemos-lhe: “Dentro desse espaço de tempo não
nos podemos responsabilizar pela concretização dessa sua vontade.”
- Porque acha
que ele pedia isso?
- Penso que teve a ver com alguns desencontros com o técnico
na temporada anterior, na qual passou muitos jogos no banco.
- Brian Laudrup era
um negócio realista para o Sporting?
- Era.
- Como Laudrup não vem, o Sporting
vai apontar a outro objectivo?
- Não. Sabemos que, inexoravelmente, no decorrer
desta temporada poderemos ter de introduzir algumas afinações no plantel, mas
não achamos necessário fazer outra contratação só porque Laudrup não veio.
-
Admite, portanto, retocar a equipa de acordo com as convicções do novo
treinador.
- Volto a repetir: na SAD do Sporting, o CA toma as decisões, o
treinador treina e os jogadores jogam.
- Então...?
- Então, admitimos tudo, não
apenas por vontade do treinador, mas por convicção da estrutura que decide.
LEANDRO E UMA HIPÓTESE
- O Sporting vendeu finalmente o Leandro, que chegou a
ser dado como reforço para a próxima época. Como o Sporting pensou comprar outro ponta-de-lança que não apenas o Ayew - vide o caso de Washington -, sou levado a
pensar que o clube vai tentar a vinda de outro avançado, de área, de
características diferentes aos que já possui. Estou a ver bem?
- Imediatamente
isso não vai acontecer
- Admite-o em Dezembro?
- Admito como possível depois da
época ter começado.
HANUCH E O BENFICA
- Hanuch foi um jogador ganho em “sprint”
ao Benfica?
- Não foi. O nosso interesse pelo Hanuch já existia antes do sr.
Heynckes ter ido à Argentina observar jogadores. O que acontece é que o Sporting
não publicitou o interesse e fez a proposta na altura em que tinha de a fazer,
utilizando a força que poderá voltar a usar novamente assim que tiver interesse
num jogador: a capacidade financeira. A estabilidade que ganhámos no último ano,
a culminar uma recuperação encetada em 1995, permite-nos esse tipo de gestão.
Coisa que não faríamos se não tivéssemos invertido as prioridades no passado...
- O Hanuch custou quanto?
- À volta de 400 mil contos - cerca de dois milhões de
dólares, mais qualquer coisa.
- Gostava de deixar este assunto claro: o Sporting
fez ou não questão de ganhar Hanuch ao Benfica e às notícias dos jornais?
- Nem
pouco mais ou menos! Como critério de gestão seria paupérrimo.
- Então
resguardou-se bem das notícias.
- E aí, volto a dizer, houve muito mérito de
quem teve de implementar a estratégia e de a concretizar em termos negociais,
que foi o Paulo Abreu.
JOZIC INDICOU AYEW
- Ayew: quando nasceu o interesse pelo
ex-ponta-de-lança do Boavista?
- Ainda no tempo de Mirko Jozic. Considerou-se
logo que seria um reforço indiscutível.
- Quanto custou?
- Foi um negócio que
andou na casa dos 600 mil contos.
- Porque não ficou Washington no Sporting?
-
Tinha problemas físicos que não eram aceitáveis pelos padrões mais rigorosos do
Sporting.
ALMOÇO DE OCEANO
- O que significou o almoço a meio da época passada
entre Carlos Janela e Oceano?
- Naquela altura, havia a ideia, talvez mais junto
das pessoas que trabalhavam directamente com Mirko Jozic, que Oceano poderia
enquadrar-se no projecto.
- Depois do que disse na altura da saída? Só prova que
o presidente do Sporting não é rancoroso...
- Não, não. A memória existe. Por
isso, seria sempre difícil ultrapassar as declarações proferidas pelo Oceano.
-
Então não se percebe bem o contacto com Oceano...
- Percebe-se no sentido de
apurar as razões pelas quais o Oceano tinha afirmado isso.
- Jozic não conhecia
Oceano, nunca trabalhou com ele. Parece-me lógico pensar que a lembrança sobre o
nome de Oceano nunca poderia partir do treinador... Nem de si...
- O regresso de
Oceano, e isso é que é importante, foi liminarmente colocado de lado nesse
momento, quando houve a divulgação do encontro.
QUESTÕES DO FUTEBOL
- António
Oliveira e Carlos Queiroz foram nomes equacionados nos primeiros momentos da
sucessão de Mirko Jozic?
- Não. Fizemos uma definição muito clara do perfil e,
tal como na escolha anterior, por diversas razões, fomos para a necessidade de
um técnico estrangeiro.
- Porque saiu Simões de Almeida do Sporting?
- Essa
questão, se me permite, já foi suficientemente tratada. Não merece ser remexida.
- Só lhe faço esta pergunta: Simões de Almeida pediu para sair?
- Sim. E são
opções de vida que devemos respeitar.
- Qual o grau de autonomia que Paulo Abreu
tem no comando do futebol do Sporting?
- Aquela que tem de ter a pessoa que
executa. Mas já lhe disse que as decisões estratégicas são tomadas por consenso
no CA da SAD.
- Porque não esteve o presidente do Sporting presente na
assinatura do contrato com Peter Schmeichel, a contratação mais emblemática
deste defeso?
- Lá está: porque isso decorre da execução. E para não correr o
risco de lhe aumentar o impacto mediático. Não foi para isso que contratámos o Peter Schmeichel.
TODOS NÃO SÃO DE MAIS
- Dias da Cunha tem-no substituído em
diversas ocasiões. É ele o número 2 do Sporting?
- Não há aqui números 2, 3 e 4.
O dr. António Dias da Cunha, em termos estatutários, substitui-me nos
impedimentos. E está comigo deste o início deste processo, assim como o dr.
Miguel Galvão Telles. Entretanto também entrou outra pessoa de muito peso, o
João Ribeiro da Fonseca. E outros, em fases mais recentes, como o Nuno Galvão
Telles e o Paulo [Abreu] também. As solicitações são muitas e todos não somos de
mais para representar o Sporting e ajudarmo-nos mutuamente a resolver os enormes
e permanentes conflitos da actividade no clube com as nossas vidas pessoais e
profissionais. Temos de nos repartir. Até pelos núcleos. O Sporting cobre o País
inteiro e está sempre bem representado mesmo quando não está o presidente.
ZIGUEZAGUES E CONFIANÇA
- O Sporting tem andado, é a minha opinião, em
ziguezagues estratégicos permanentes no que concerne à área do futebol e o
presidente do Sporting tem-se enganado na avaliação de muita gente, de Octávio
Machado a Carlos Manuel, passando por Oceano, Sá Pinto, José Couceiro, Norton de
Matos, que saiu duas vezes, e até Carlos Janela, que já saiu uma. Isso terá a
ver, concedo, com as escolhas das diferentes pessoas que tutelaram a área do
futebol. Mas eu pergunto: o senhor não se envolve demasiado no apoio inicial às
pessoas ficando depois sem margem de recuo? O que aprendeu nestes dois três anos
de estreita ligação ao futebol?
- Não aprendi nada que me impeça de repetir
esses mesmos erros. É da minha personalidade. Ou acredito nas pessoas ou não
acredito; não tenho meio termo. Não digo: “acredito, mas.” E dou o benefício da
dúvida até ao limite do possível. Não consigo erradicar isso de dentro de mim e
já o tenho pago bem caro.
- Noutras áreas também?
- Noutras áreas. E nessas,
sim, com a perda de verbas muito elevadas. Mas não vou mudar a minha forma de
ver a vida e as pessoas, porque, ao fim e ao cabo, isso também tem sido
determinante nos sucessos que tenho conseguido. Não se consegue motivar uma
pessoa quando não se acredita nela. Há quem julgue que é melhor gerir pela
desconfiança e pelo medo. Eu não.
RELAÇÕES COM O BENFICA
- As relações com o
Benfica como estão? Julgo que é visível uma certa vontade de aproximação do
presidente Vale e Azevedo, vide algumas declarações públicas recentes.
-
Enquanto não tiver razões para alterar o diagnóstico que fiz da personalidade do
presidente do Benfica, não vai haver nenhuma alteração, ou seja, não vai haver
proximidade pessoal. Se calhar, o dr. Vale e Azevedo é daquelas pessoas que
quando faltam à verdade anestesiam os circuitos mentais com o superior interesse
do clube. Não aceito isso. Mas as relações institucionais entre Sporting e
Benfica estão salvaguardadas. Ainda há poucos dias tivemos atletas do Benfica a
competir no encontro de atletismo Luís Figo, entre Sporting e Barcelona.
- É
possível uma aliança, ou uma confluência estratégica, entre Sporting, Benfica e
Boavista, clubes que se dizem críticos do “sistema” e apontam o dedo ao FC
Porto?
- Aliança não há. Mas todos aqueles que achem importante mudar os maus
hábitos e queiram ajudar a percorrer esse caminho são bem-vindos. Desde que a
intenção seja mesmo essa, ou seja, se acredite que a mudança é mais importante
do que as instituições.
- Distingue o presidente do Boavista, João Loureiro, do
presidente da Liga, Valentim Loureiro?
- [Sorrindo] Claramente. Tenho razões
para o fazer em termos objectivos. Tive negociações com o dr. João Loureiro -
olhe, a propósito de Ayew - com as quais o pai não teria nada a ver.
- Tem
melhores relações com o pai ou com o filho?
- Igualmente boas com os dois.
O CASO-FARENSE
- O senhor é empresário e dirigente desportivo. Como vê, nessa
dupla função, o recente negócio entre o principal accionista do Salamanca, Juan
Hidalgo, e o Farense?
- Com alguma frustração e tristeza, até por verificar que
não foi possível a nível nacional cuidar adequadamente das questões relacionadas
com a saúde económico-financeira dos clubes. Por outro lado, este caso vem
tornar ainda mais válida a visão que o dr. Alberto João Jardim tem do Marítimo.
É pena que o Algarve, uma zona turística ainda mais importante que a Madeira,
não pudesse ter feito o mesmo com o Farense.
- É realista pensar que um grupo
internacional possa entrar no capital da Sporting SAD? - Esse interesse já
apareceu. Houve um grupo inglês que fez uma aproximação ao Sporting dizendo-se
interessado no controlo maioritário da SAD. E dissemos liminarmente “não”. Essas
defesas o Farense não as teve. Não acredito que tivessem, os seus dirigentes,
aceitado este estatuto, que de alguma forma os torna menores, se pudessem dispor
de alternativas melhores. E, se calhar, somos todos responsáveis por isso. A
começar, repito, pelo Algarve.
- O Sporting foi surpreendido pela notícia?
-
Foi. E eu teria gostado que eventualmente alguém do Farense, na qualidade de
dirigente de uma das mais antigas filiais do Sporting, tivesse falado antes
connosco.
- Adiantaria alguma coisa? Pensa que poderia ter dinamizado uma
solução para o Farense?
- Eventualmente. Dentro do quadro legal. Como se sabe, o
Sporting não poderia ser accionista de duas SAD’s. A lei não o permite. Mas
poderia haver outras soluções que passassem por algumas pessoas interessadas no
Sporting.
"SÁ PINTO ENCERROU 'DOSSIER' REGRESSO"
- O Sporting esteve interessado
no regresso de Sá Pinto a Alvalade?
- Esteve mais do que interessado. Foi feita
ao Ricardo Sá Pinto uma proposta objectiva, por alguns anos, que envolvia um
montante muito, muito elevado.
- Essa proposta foi feita quando?
- Estamos a
falar de alguns meses. E a essa proposta o Ricardo Sá Pinto nunca deu uma
resposta conclusiva.
- Foi o senhor quem lhe apresentou essa proposta?
- Não,
foi o Paulo Abreu. Mas eu mesmo falei depois com o Sá Pinto sobre a proposta.
-
E então?
- Não houve a resposta adequada ao esforço que o Sporting estava
disposto a fazer para tê-lo de regresso a Alvalade. E depois as coisas
complicaram-se também pela parte da Real Sociedad, que nunca tendo fechado
definitivamente as portas colocou condições que tornavam muito difícil a
transferência. Nessa matéria, é óbvio que as coisas se complicaram
irreversivelmente quando, com alguma infelicidade, o Ricardo Sá Pinto colocou as
coisas daquela forma em termos públicos. Volto, a este respeito, a falar-lhe da
memória curta das pessoas. Lembra-se de quem foi um dos principais
crucificadores do Sá Pinto quando ele teve aquele problema com o seleccionador
nacional, não lembra?
- Está a referir-se ao presidente do FC Porto, Pinto da
Costa, não é verdade?
- Com certeza! Toda a gente se lembra do que ele disse!
-
Bem, mas o Sá Pinto julgo que só confessou o seu amor ao FC Porto...
- Não faço
mais comentários.
- O Sá Pinto tem no contrato uma cláusula de rescisão de valor
creio que um pouco acima dos quatro milhões de contos. Qual era o limite que o
Sporting estaria disposto a pagar à Real Sociedad para ter o jogador de regresso
a Alvalade? Ele disse que por cerca de dois milhões de contos poderia sair...
-
É provável. Mas esse número não estava encaixado na nossa linha estratégica. E
juntando essa verba à outra, aquela que seriam os números do contrato do Ricardo
Sá Pinto, então, sim, estaríamos na presença de uma situação desequilibrante no
plantel. O Sporting nunca comprou um jogador por esse dinheiro, nem nada que se
pareça.
- Sá Pinto queixa-se de que o presidente da Real Sociedad lhe terá
transmitido, da conversa que teve ao telefone consigo, a pouca convicção do
Sporting em fazer o negócio. Rebate este ponto?
- Tenho uma boa relação com o
presidente da Real Sociedad, que data precisamente da ida do Sá Pinto para San
Sebastian. E nessa perspectiva, a partir do momento em que não era possível
cobrir uma eventual diferença, não ia estar a enganá-lo ou perder tempo.
- Como
recebeu a entrevista de Sá Pinto ao jornal “A Bola”? Se calhar, até deveria
tê-la recebido bem. Ao fim e ao cabo, com aquelas declarações, Sá Pinto
tirou-lhe um peso de cima...
- Nunca a receberia bem. E com esse tipo de peso
podia eu muito bem. Tenho pelo Ricardo Sá Pinto uma grande consideração.
- Falou
com ele depois disso?
- Não, não falei. Mas respondendo à pergunta que me fez:
tenho pena que ele tenha feito aquelas declarações. Foi infeliz e encerrou
definitivamente o “dossier”.
- E não estava nessa altura?
- Talvez não
totalmente. Em termos negociais, o Sporting não podia entrar num esquema de
cobrir a grande diferença que existia. Mas quem sabe o que poderia suceder daqui
a um ano?
- O que me está a dizer é que o Sá Pinto, depois desta entrevista,
nunca mais poderá regressar ao Sporting...?
- Depois daquilo que disse, com o
que chocou muita gente, é muito, mas mesmo muito, difícil o Sá Pinto regressar
ao Sporting. E tenho pena. Principalmente por ele.
"PINTO DA COSTA MENTIU-ME COM TOÑITO"
- Vamos abordar o caso-Toñito e o “corte” com Pinto da Costa. O que se
passou em concreto?
- Bem, nesse caso específico aguardei com muita paciência
para ver até onde é que as coisas iam. Deixemo-nos de mistificações!, telefonei
mesmo ao sr. Pinto da Costa com o único objectivo de tratar da questão do Toñito!
- Quando fez esse telefonema?
- Imediatamente a seguir ao jogo FC Porto-V.
Setúbal. E se ele me tem levantado qualquer tipo de objecção em relação ao
Toñito - por exemplo: “desculpe, estou interessado no jogador” - o problema
teria ficado resolvido nesse momento.
- O Sporting ter-se-ia desinteressado do
jogador?
- Imediatamente! Ele não era obrigado a conhecer o que se tinha passado
entre o Sporting e o V. Setúbal, quatro semanas antes. Aliás, a minha surpresa
face às declarações do presidente do V. Setúbal após o jogo das Antas levou-me,
ainda, a fazer um outro telefonema para ele e, a partir daí, a tentar saber a
quem efectivamente pertencia o passe do jogador. E só depois, então, a falar com
o sr. Pinto da Costa.
- Fez a pergunta em concreto, ou seja, se o FC Porto
estava interessado no Toñito?
- Concreta e objectivamente!!! E repito: se ele me
tem respondido “sim”, dentro daquilo que era o nosso relacionamento as coisas
ficavam resolvidas ali. Mas não, disse-me para estar descansado e tranquilo! Que
o FC Porto honraria o entendimento que tinha connosco de não disputarmos
jogadores. Está a ver?!
- Pinto da Costa mentiu-lhe, é isso que me está a dizer?
- Mentiu-me objectivamente! E mais, como por acaso eu não estava sozinho na
sala, houve mais gente que seguiu o telefonema. O sr. Pinto da Costa mentiu-me
e, para além disso, não honrou o compromisso que nesse mesmo telefonema assumiu
comigo de deixar o Sporting sem a concorrência do FC Porto na contratação do
Toñito. Nestas circunstâncias, não posso deixar de fazer o diagnóstico daquela
que é a personalidade do presidente do FC Porto. E não posso ter qualquer tipo
de tolerância. Já me bastou ser extremamente tolerante antes e dar o benefício
da dúvida, como, de resto, faço sempre. Aliás, digo-lhe, dou o benefício da
dúvida quase até ao limite da ingenuidade; mas depois de fazer o diagnóstico
sobre a personalidade de alguém sou extremamente severo, até comigo próprio.
Essas coisas têm muita importância na minha vida.
- Já vi que é impossível o
presidente do Sporting vir a reatar as antigas relações com o presidente do FC
Porto?
- Não é impossível. Se, por razões que eu não descortino, o presidente do FC Porto viesse dizer que faltou à verdade e não honrou o compromisso que tinha
comigo... As pessoas na vida têm melhores e piores momentos e eu não trabalho em
cima de ódios. De qualquer forma, as relações institucionais entre Sporting e FC
Porto, como entre Sporting e Benfica, estão salvaguardadas. Em termos pessoais,
aí sim, estão irremediavelmente afectadas, a não ser que aconteça algo de tão
extraordinário como aquilo que lhe acabo de dizer.
- E acha que isso é possível?
- Não me parece, francamente.
- Vamos então falar de Toñito: o jogador vai ser
reforço do Sporting?
- A decisão está em sede própria: o Tenerife. Esse é o
clube que detém efectivamente o passe.
- O jogador já disse que quer jogar no
Sporting. O acordo com o Tenerife está feito?
- O acordo definitivo com o
Tenerife depende de circunstâncias próprias do clube. Vamos respeitar o
interesse do legítimo dono do passe. - Segundo julgo saber, o Sporting já tem um
acordo com a Direcção do Tenerife que precisa, no entanto, de ser sufragada pela AG do clube. É isso?
- É um acordo em termos de intenções. E agora temos de
respeitar as circunstâncias próprias que comandam nesta altura a vida interna do
Tenerife. Vamos aguardar uns dias.
"ESPERO QUE MATERAZZI SEJA CARO"
- Porque
saiu Mirko Jozic do Sporting?
- Ao contrário do que a Comunicação Social possa
acreditar, foram as condições físicas do sr. Mirko Jozic que determinaram o
abandono. Ele é uma pessoa de enorme seriedade pessoal, a quem o Sporting muito
deve em função do rigor e profissionalismo com que trabalhou no clube. Foi um
factor de mudança muito importante. No entanto, como pessoa séria que é, o sr.
Jozic sentia a sua incapacidade física e sabia da exigência que a próxima época
imporia ao clube e à sua própria actividade. Algumas pessoas entenderam isso
como uma desculpa e foi muito menos desculpa do que se possa imaginar.
- Quando
a meio da época passada o Sporting encenou a renovação do sr. Jozic acreditava
mesmo que ele iria continuar?
- Totalmente. Não tenha dúvida.
- Foi ele quem
pediu para sair?
- Com esta objectividade: “Não estou em condições.” O que só
abona em favor dele. Por isso continuo a ter por ele a maior consideração, tanto
em termos pessoais como profissionais.
- Como surgiu o interesse em Giuseppe
Materazzi?
- Surgiu em consequência de um trabalho sério e orientado, no qual
não fugimos muito às linhas de fundo que estiveram na origem da contratação de Mirko Jozic. Definimos um perfil e voltámos a não ceder num ponto: queremos
alguém para quem o futuro tenha mais importância do que o passado; alguém para
quem o Sporting seja um enorme desafio. E assim chegámos, muito rapidamente,
perto do sr. Giuseppe Materazzi. Não fizemos outro contacto. - Mas pelo menos um
outro treinador, Nevio Scala, disse-se contactado por um empresário ligado ao
Sporting... - Não foi verdade. Nunca fizemos essa encomenda nem mandámos nenhuma
mensagem. Nevio Scala tem um passado suficiente para sentir realização
profissional. Não se encaixava no tal perfil de alguém para quem o futuro, ou
seja, o Sporting, fosse mais importante do que o passado.
- E também seria um
treinador muito mais caro, com certeza.
- Eu espero que o sr. Materazzi venha a
ser um treinador caro. Julgo que aquilo que o terá entusiasmado neste projecto,
e a nós também, é precisamente ter aceite um enquadramento do trabalho no
Sporting directamente relacionado com aquilo que consiga ganhar.
- Contrato por
objectivos, portanto. Já agora pergunto-lhe: não acha que cometeu um erro com a
apresentação do treinador imediatamente a seguir à polémica conferência de
Imprensa sobre o caso-Toñito? Isso fez circular a ideia de que o Sporting
estaria consciente do nome de Materazzi não corresponder inteiramente às
expectativas criadas. Quer comentar?
- A verdade é esta: não estava previsto que
as coisas acontecessem à velocidade a que aconteceram. Foi só isso. Eu próprio,
que conheci o sr. Materazzi ao almoço desse dia, aqui em minha casa porque havia
que fazer as coisas com o conveniente resguardo, não contava com um acordo tão
rápido. Saí deste almoço com a nítida sensação que tínhamos encontrado a pessoa
certa, mas - não me está a ver negociar os pormenores do contrato - havia coisas
a resolver. Só fui informado do acerto total quando já estava na outra
conferência de Imprensa.
- E essa estava programada?
- Com três dias de
antecedência. Em relação à outra, como estava fechado o contrato, resolvemos que
não havia razão para protelar a apresentação.
- Se pudesse ter programado as
duas, manteria o mesmo formato ou teria realizado cada uma delas em dias
diferentes?
- Eventualmente teria.
"SPORTING É UM DESAFIO PARA SCHMEICHEL"
-
Como surgiu a hipótese da contratação de Peter Schmeichel? Ainda antes da final
da Liga dos Campeões?
- Sim. A certa altura chegou-nos a informação que havia
essa disponibilidade. O Peter Schmeichel ia mudar o enquadramento da vida dele
e, possivelmente, sair de Inglaterra. Nessa altura entendemos que o Sporting
poderia ser um desafio para ele, como acabou por se concretizar. Tenho fundadas
esperanças que a vinda do Schmeichel se torne em muito mais que a operação
mediática a que algumas pessoas quiseram reduzir a contratação dele pelo
Sporting.
- É curioso: quando me fala do treinador diz que era importante para o
Sporting contratar um homem para quem o futuro fosse mais importante que o
passado. Não é uma contradição ir buscar um guarda-redes com a categoria, o
percurso e a idade do Peter Schmeichel? Trata-se, é óbvio, de um grande atleta,
mas estará, pelo menos, no terço final da carreira. E, com certeza, para ele
será muito difícil, se não mesmo impossível, conseguir no Sporting um percurso
futuro superior ao passado no Manchester United...
- Não é uma contradição,
porque treinador e jogador são coisas diferentes. São planos de vida e
enquadramento no Sporting diversos.
- Seja. Mas não admite que o mundo do
futebol - e quando falo assim estou a colocar-me na qualidade de um observador
que viva em Londres, Roma ou Munique, por exemplo - observe esta decisão de Schmeichel e de imediato pense que ele veio a caminho do sol, e de um clube onde
não há tanta pressão competitiva quanto a existente nos grandes clubes europeus,
para gerir calmamente o talento e a proximidade do final da carreira?
- Se se
tratasse de outra pessoa que não fosse o Peter Schmeichel, e se não soubéssemos
aquilo que sabemos dele, isso podia ser uma preocupação. Assim não é nenhuma.
-
Bem, os dirigentes do Sporting dificilmente conhecerão o Peter Schmeichel tão
bem como isso...
- O profissionalismo dele durante toda a carreira é uma enorme
garantia. Esse aspecto não me preocupa minimamente.
- O ordenado dele não poderá
ser factor de desestabilização dentro do plantel do Sporting?
- Não. Tivemos,
como sempre, essa preocupação. Se fosse desequilibrante, tal como em outras
alturas, teríamos dito: “Não está ao alcance do Sporting.” E o Peter Schmeichel
entendeu isso.
- Acha normal, até como homem de negócios experimentado, que um
jogador não se importe de ganhar menos que aquilo que sabe que vale em termos de
mercado?
- É normal dentro de um entendimento alargado e na perspectiva que o
atrai hoje: “O Sporting é um desafio importante e eu vou partir para ele.” O Peter Schmeichel, é óbvio, podia ter feito escolhas mais mediáticas.
- É
exactamente esse o ponto que faz desconfiar muita gente.
- Mas não nos faz
desconfiar a nós, que acompanhámos as negociações, e sabemos que ele prescindiu
de alguns aspectos negociais concretos precisamente por entender que não poderia
ser factor de turbulência dentro do Sporting. Isso reforçou-nos a ideia de que
ele olha para o Sporting como um enorme desafio. Ele sabe que o Sporting não é a
melhor equipa da Europa; que não é campeão há vários anos. Mas essa foi a
situação que ele encontrou num clube como o Manchester United quando lá chegou.
E isso, não tenha dúvidas, é motivante para um homem como ele.
- Não duvido da
bondade da sua fé no profissionalismo de Peter Schmeichel, mas acredito que se
estivesse de fora do Sporting, ou mesmo no clube e fora desse círculo restrito
que terá ficado impressionado com a personalidade do homem, também teria as suas
dúvidas. Que, de resto, o tempo esclarecerá.
- Acredite nisso. Tenho elementos
de informação que não têm aqueles que estão fora do Sporting.
"JOGADORES ESTÃO A
SER UTILIZADOS NA GUERRA DOS COMISSIONISTAS"
- Três jovens jogadores do Sporting
- Paulo Costa, Alhandra e Caneira - pediram a rescisão do contrato. Que razões
encontra para isso?
- Os jogadores estão a ser utilizados na guerra dos
comissionistas contra o Sporting. É uma questão que acabará tratada,
infelizmente, na Comissão Paritária.
- Vamos falar, então, na polémica pública
com esses empresários que o senhor, e o Sporting, chamam agora de
comissionistas...
- Não é uma polémica pública. Existe uma acção-crime em curso,
do Sporting, contra esses senhores.
- E qual é a diferença entre eles e, por
exemplo, José Veiga, empresário com quem o Sporting trabalha?
- O Sporting
trabalha com José Veiga como trabalha com mais alguns que não estavam naquela
conferência de Imprensa que o clube considerou danosa para o seu bom nome e dos
seus dirigentes. A diferença está na ofensa e na calúnia. A zona dos empresários
faz parte do “sistema”, daquele conjunto de maus hábitos que têm de ser
erradicados. Tem de ser tratado com algum pormenor a figura do empresário.
Representa quem? O jogador? Então...
- Se alguém luta contra o “sistema” nessa
questão, esse alguém parece-me ser o presidente do FC Porto, Pinto da Costa...
-
Mas eu não digo que as coisas são incorrectas só porque é o presidente do FC
Porto a dizê-las.
- José Veiga não está transformado no empresário oficial do
Sporting?
- Não. De todo em todo.
- Mas tem tido procuração do Sporting para
tratar de algumas contratações, ou não?
- Porque José Veiga está normalmente
inserido no circuito. Mas volto atrás: há problemas éticos gravíssimos a nível
da regulamentação da função de intermediário. Então alguém que se diz gestor da
carreira de um jogador recebe, ao mesmo tempo, do clube comprador e do clube
vendedor?
- A ligação de José Veiga ao Sporting não terá também como pano de
fundo a polémica que opõe actualmente esse empresário ao presidente do FC Porto?
Ou seja, não há aqui o interesse estratégico do Sporting em rentabilizar
divergências entre pessoas que se conheceram muito bem?
- Não pense nisso. As
relações com José Veiga são anteriores.
- As relações do Sporting com José Veiga
já tiveram momentos bons e momentos maus. Estes últimos aconteceram nos tempos
de Sousa Cintra e, mais recentemente, aquando da passagem de Octávio Machado por
Alvalade, um treinador que procurou imunizar, ele sim de maneira geral, o clube
aos empresários.
- Não conheço nenhum dano que o sr. José Veiga alguma vez
tivesse feito ao Sporting.
- Está de acordo com Pinto da Costa quando ele diz
que os empresários não devem estar nas negociações entre os clubes?
- Mas houve
algum intermediário, por exemplo, na venda de Simão ao Barcelona?
- Não houve
José Veiga?
- Pelo lado do Sporting, não.
- Teve conhecimento do eventual
contrato assinado por Simão com o Inter?
- Só tivemos conhecimento desse papel,
que terá sido assinado em Milão, pelos jornais e depois do acordo com o
Barcelona. Não houve qualquer contacto oficial do Inter com o Sporting.
"JOÃO
ROCHA FOI IMPORTANTE MAS ESTÁ A ANULAR O PASSADO"
- Continua a ler o que escreve
o Santana Lopes?
- Como leio as coisas que se escrevem neste sector; como leio o sr. [Alfredo] Farinha.
- Não acha que a Santana Lopes deu muito gozo a zanga
José Roquette-Pinto da Costa?
- Se tiver dado... Mas nós decidimos pelos
interesses do Sporting, antes e depois. Não decidimos pelo impacto mediático ou
pelas opiniões específicas de alguém. Até nos podemos enganar algumas vezes, mas
decidimos pelas nossas convicções.
- No caso do FC Porto acha que se enganou?
-
Obviamente, foi um equívoco, mas ninguém está livre disso. Fiz um diagnóstico
sobre a personalidade do presidente do FC Porto que se revelou errado. E, se
Deus quiser, ainda vou errar muito mais vezes.
- Santana Lopes e João Rocha,
dois ex-presidentes, são oposição no Sporting?
- Não vejo isso nessa
perspectiva. Gostaria, eventualmente, que se assumissem como tal. Mas não vejo
isso em relação ao dr. Santana Lopes.
- E em relação a João Rocha?
- Vejo, com
muita tristeza, uma amargura e um destilar de coisas que não tem nada a ver com
os interesses do Sporting, nem nenhuma importância. O sr. João Rocha foi uma
pessoa muito importante em determinado momento do clube e parece interessado em
anular isso. Parece esquecido de que um antigo presidente tem direitos mas
também tem deveres.
- Tentou, de alguma maneira, anular essa zona do conflito
através do diálogo com João Rocha?
- Com certeza. Porque tenho algum desgosto
com esta situação. No meu quadro mental, quando falo dos fundadores, não estão
apenas o meu avô e o meu trisavô; estão dezanove pessoas das quais até sei o
nome. A questão de saber o que se passou na fundação do Sporting é pouco
importante para o clube hoje, embora seja importante em termos de história. Não
justificava esta polémica constante. Neste momento, existe uma comissão
encarregada de produzir um livro branco que explicará tudo. E, pelo nível das
pessoas que o preparam, garante com certeza a verdade. Parece-me que tudo isto
não faz sentido.
- ...
- É que João Rocha não parece ter divergências
estratégicas, se não iria à assembleia geral e proporia uma alternativa em sede
de Poder. Objectivamente, quando se tratou da alteração estatutária referente ao
Conselho Leonino, ele deslocou-se lá e todos sabem qual foi o resultado dessa
assembleia. Uma coisa que a mim me pesa é que o sr. João Rocha não respeita essa
sede do Poder e a decisão dos sócios.
- Tanto o senhor como João Rocha, que
esteve 13 anos como presidente do clube, sabem muito bem como se exerce o Poder
e para que servem as assembleias...
- Não é como se exerce o Poder. Estas
questões têm muita importância.
- Não teria sido mais avisado não atirar João
Rocha para fora do Conselho Leonino?
- Volto a repetir que tinha a intenção de o
convidar para continuar no Conselho depois da alteração estatutária. Ele é que
se auto-excluiu.
- A questão hoje, com as últimas referências de João Rocha, que
até meteu uma alusão a urinóis, parecem-me nitidamente do foro pessoal...